sábado, 30 de maio de 2015

Leitura, oralidade e escrita: práticas linguísticas, sociais e pedagógicas

(Conteúdo 7)

  
          Historicamente, as práticas de Escrita e Leitura se configuraram como representações sócio-discursivas de diferentes classes . 
          A prática pedagógica faz uso de cartilhas, livros e manuais didáticos para instrumentalizar os exercícios de leitura e escrita em sala de aula. Entretanto, a escola mostra modelos de escrita, mas não consegue ensiná-los. A escola não prioriza: Quais são as condições atuais de leitura? Quem lê? Quem escreve? Para quê? Por quê?                    
          No exercício pedagógico das práticas de Leitura e Escrita há o apagamento (ou enfraquecimento) de sua mais importante característica: a interacionalidade dialógica – constitutiva da linguagem, seja oral ou escrita.                                                                                            O aluno não é levado a produzir textos e sim a reproduzi-los e sua autonomia e originalidade, na maioria das vezes, é podada e minada ao longo de seu percurso escolar. Portanto, não há troca, interação, mas apenas uma simulação desse processo entre professor e aluno. Em geral, o professor é sempre a boca (falante) e o aluno é sempre a orelha (ouvinte), sem que nunca troquem de papéis. E quando o aluno (re)produz, o professor não está interessado em sua produção, mas em se ele conseguiu reproduzir o modelo.                                                                
            Os sentidos que as crianças atribuem à escrita, seus esquemas de interpretação, são variados e dependem das experiências passadas, bem como dos conhecimentos adquiridos – a escola confunde falta de conhecimento com inaptidão para adquirir os conhecimentos acadêmicos, não reconhecendo o saber do aluno e rotulando-os: “os alunos fracos”, “os que não sabem”. Veja-se o texto, abaixo, em que a professora está interessada em se a criança decodificou a escrita, mas não está preocupada com a interpretação que a criança faz.
Apresentado por SMOLKA (1988, p.59).

A professora escreve na lousa:
"A mamãe afia a faca"
e pede para uma criança ler.
A criança lê corretamente.
Um adulto pergunta à criança:
- Quem que é a mamãe?
- É a minha mãe, né?
- E o que que é "afia"?
A criança hesita, pensa e responde:
- Sou eu, porque ela (a mamãe) diz: vem cá, minha fia.
A professora, desconcertada, intervém:
- Não, afia é amola a faca!"

          A criança é exposta a uma frase solta, descontextualizada, mas mesmo assim tenta levantar hipóteses, com base no uso que ela faz de ‘afia’ no seu contexto social e funcional. Vê-se que, como a criança já usa a linguagem (oral) e sabe que ela tem uma função, um sentido, ela fica confusa por não conseguir se subjetivar pelo “texto” que a escola apresenta.

Para melhor ilustrar como uma "frase solta" pode ter outras interpretações vindas dos alunos, assista ao vídeo abaixo:



Apesar de parecer uma pergunta "boba", a professora a faz sem primeiramente explicar o contexto , por isso o aluno se engana quanto á sua possível resposta.



Smolka (1988) questiona: “que escrita é essa que a criança aprende na escola que faz com que ela “regrida” quando escreve o que pensa? Assim se comprova, mais uma vez, que a escola ensina as crianças a repetirem e reproduzirem palavras e frases feitas. A escola ensina palavras isoladas e frases sem sentido e não trabalha com as crianças [na fase da escrita inicial], o “fluir do significado”, a estruturação deliberada do discurso interior pela escritura” (SMOLKA, 1988, p.69).                                                                                                                  

É devolvendo o direito à palavra ao aluno que talvez se possa um dia ler a história contada, e não contida, da grande maioria que hoje ocupa os bancos das escolas públicas. “E tal atitude, parece-me, dá novo significado à questão “como avaliar redações?” apontando, no mínimo, para critérios diferentes daqueles que reprovaram o autor do texto, e aprovaram o “autor” da redação.” (GERALDI, 1985, p.129).
              É preciso não perder de vista que o autor/sujeito emerge do discurso na escritura, e o professor enxergará isso, observando as marcas, delineando as pistas e trabalhando a leitura e escritura como práticas discursivas. Não se trata apenas de ensinar (no sentido de transmitir) a escrita, mas de usá-la como interação e interlocução na sala de aula, experimentando a linguagem nas suas várias possibilidades. 
          Considerando a proposta da autora, vejam-se dois textos (apresentados por Smolka) em que se podem reconhecer todos esses aspectos por ela apontados, relacionados ao trabalho com o texto literário e o processo de subjetivação da criança, através da leitura/escrita.


[A minha irmã parece o Janjão e eu não gosto dela... ela mexe quando eu tô brincando de carrinho ela não deixa eu brincando de carrinho porque ela não gosta que eu não "brinco" com moleque de rua. Mas eu vou na rua, eu bato nela e eu vou, bato, e a minha mãe bate em mim e vou dormir. Depois que eu acordo, quando meu pai chega, eu falo pra ele, ele bate nela. Eu gosto quando meu primo bate nela. Eu dou risada. Acabou "dessa" folha]

[A galinha foi na feira com o galo. Ela beijou o galo. Ela passou "boca louca". O pintinho falou: "Olha o namoro!" O galo falou: "Porque a sua mãe é bonita demais!" A galinha falou: "Você também é". O galo falou: "Obrigado". A galinha falou: "Obrigado, você". O galo: "De nada". O galo deu um 'boca louca" para ela. O pintinho bicou o galo, o galo pegou os pintinhos no couro e o galo casou com a galinha e os dois foram passear no bosque. A galinha ficou contente. Os pintinhos ficaram chorando.]


A atividade abaixo( para sala de aula) estimula a leitura, a oralidade e a escrita.







Bibliografia:


BRITO, P.L. Em terra de surdos-mudos: um estudo sobre as condições de produção de textos escolares. In: GERALDI, J.W. (org). O Texto na sala de aula. Cascavel: Assoeste, 1985.
MOLKA, A.L. A criança na fase inicial da escrita. S. Paulo:Cortez, 1988.


GERALDI, J.W. (org). O Texto na sala de aula. Cascavel: Assoeste, 1985, p.109-119.

(Letícia M. Goulart)

Diferenças e Características da Fala e da Escrita:   diferentes níveis de formalidade, organização e variação.

(conteúdo 5)

           A Fala e a Escrita são duas modalidades de uso da língua que se utilizam do mesmo sistema linguístico, mas têm suas próprias peculiaridades. Isso não significa que uma é superior a outra.
           Conforme Koch, (1997), alguns autores a partir da década de 60 consideraram a dicotomia entre as modalidades FALA e ESCRITA, atribuindo a cada uma características particulares.  Koch afirma que tais características refletiam uma visão preconceituosa e centrada no modelo da escrita formal padrão. Veja as tabelas abaixo para maior entendimento sobre a FALA e a ESCRITA:

FALA
ESCRITA
Contextualizada
Descontextualizada
Implícita
Explícita
Redundante
Condensada
Não-planejada
Planejada
Predominância do “modus pragmático”
Predominância do “modus sintático”
Fragmentada
Não-fragmentada
Incompleta
Completa
Pouco elaborada
Elaborada
Pouca densidade informacional
Densidade informacional
Predominância de frases curtas, simples e coordenadas.
Predominância de frases complexas e subordinadas
Pequena freqüência de passivas
Emprego freqüente de passivas
Poucas nominalizações
Abundância em nominalizações
Menor densidade lexical
Maior densidade lexical

















         Em linhas gerais, é possível considerar que essas características não são exclusivas nem de uma nem de outra modalidade e que elas foram estabelecidas a partir dos parâmetros da escrita por visão preconceituosa que discriminava a fala. É mister entender que a fala possui características próprias:
1) não-planejável”. Ela precisa ser apenas “localmente planejável”.
2) ela é o seu próprio rascunho (não tem como passa-la a limpo, pois o que foi dito , não tem volta, apenas reparação.
3) Descontinuidades frequentes no fluxo discursivo,
4) Sintaxe característica ligada, de certa forma, à sintaxe geral da língua.
5) Fala é processo, portanto, é dinâmica.

           O texto falado não é caótico, ele tem uma estrutura própria que se pauta a partir de sua produção. É nesse sentido que deve ser descrito e avaliado. No processo de produção do texto falado, os interlocutores estão num mesmo tempo e espaço físico (salvo exceções como telefone, rádio e outras possibilidades de conversação oral à distância que a tecnologia oferece).

I. QUESTÃO DE REFERÊNCIA:
 na oralidade muitas vezes os referentes são recuperados no próprio contexto (basta apontar, por exemplo), dispensando assim que os falantes precisem explicitá-os sempre. Mas na escrita não é bem assim, pois por ser não-presencial há a necessidade de explicitar sempre os referentes, através das marcas lingüísticas.

II. REPETIÇÕES: no texto falado, a repetição é muito freqüente, aliás ela é um dos seus mecanismos de organização, desempenhando funções didáticas, sintáticas, argumentativas, enfáticas etc.

III. USO DE ORGANIZADORES TEXTUAIS: são continuadores tópicos da fala, por exemplo: e, aí, daí, então, daí então etc: Os textos das crianças são ricos em organizadores textuais típicos da oralidade.

IV. JUSTAPOSIÇÃO DE ENUNCIADOS SEM MARCA DE CONEXÃO EXPLÍCITA:
 é comum, nos textos, enunciados justapostos, sem elementos explícitos de conexão, ligação ou transição. O sujeito que está adquirindo a modalidade escrita, ainda não aprendeu os mecanismos sequenciadores próprios dessa modalidade e mistura à escrita o padrão oral. Exemplo: “Entraram na gruta com lanterna primeiro foi o leão muitos tigres e onças depois foi milhares de cobras.
 
V. DISCURSO CITADO:
 o discurso citado é manifestado prioritariamente no estilo direto que o mais freqüente na oralidade, em geral, sem a presença de um verbo que introduza a fala do outro (fulana disse:, fulana resmungou:, fulana gritou:). O sujeito ainda não aprendeu os mecanismos seqüenciadores próprios da modalidade escrita e mistura a ela a estrutura mais típica da oral que é a que ele melhor conhece.

VI. SEGMENTAÇÃO GRÁFICA:
 também é comum que a segmentação gráfica, em textos de sujeitos iniciantes na modalidade escrita, seja feita em função do que ele ouve. É curioso notar que a criança, por vezes, tentando acertar a segmentação gráfica adequada, acaba dividindo no meio algumas palavras ou juntando outras numa só!

VII. GRAFIA CORRESPONDENTE À PALAVRA:
 ou seqüência de palavras tal como pronunciadas oralmente, isto é, reproduzindo o que a criança ouve.

VIII. CORREÇÕES FEITAS DA FORMA COMO SE FAZEM NO TEXTO ORAL:
 assim como na fala, o sujeito não apaga ou risca a forma que considera inadequada, mas justapõe a esta a forma corrigida. 

I. Fala x escrita - a perspectiva das dicotomias:

FALA = contextual, implícita, redundante, não planejada, imprecisa, não normatizada.

ESCRITA = descontextualizada, explícita, condensada, planejada, precisa, normatizada.

           Para um resumo breve sobre LINGUAGEM ORAL e ESCRITA , o video abaixo é recomendado :


II. Oralidade x letramento ou fala x escrita:

ORALIDADE: prática social apresentada sob várias formas ou gêneros textuais em sua diversidade de uso formal e contextual.
                                               

FALA: forma de produção discursivo-textual oral que dispensa um aparato técnico, necessitando, apenas, dos recursos próprios ao ser humano.

LETRAMENTO: uso social da escrita que vai de uma apropriação mínima da escrita até uma utilização científica dela.


ESCRITA: tecnologia de representação abstrata da fala e produção discursivo-textual com especificidades próprias.


III. Oralidade e escrita no contexto das práticas sociais:  na civilização contemporânea Marcuchi considera a relação entre “vida cotidiana” e os fenômenos da fala e escrita. O texto seria, então, uma prática social e não um artefato linguístico.
          A escrita, enquanto prática social, tornar-se-ia indispensável. Em relação ao uso da língua (fala e escrita) as práticas sociais têm o seu lugar, papel e grau de relevância de ambas as modalidades na sociedade – eixo de um “continuum” sócio-histórico-tipológico e até morfológico.

Resumindo:

èHOMEM = naturalmente um “ser que fala” e não um “ser que escreve” – a escrita é derivada e a fala é primária.
èFALA = prática social do dia-a-dia.
èESCRITA = prática de um ambiente formal - escola (o que lhe confere prestígio).

          A escrita permeia hoje praticamente todas as práticas sociais das comunidades em que se insere sob a forma de “letramento”. Os objetivos e ênfase do uso da escrita variam de acordo com os contextos em que se inserem: a “apropriação / distribuição” da escrita e da leitura (padrões de alfabetização), e os “usos / papéis” da escrita e da leitura (processos de letramento). Mesmo as pessoas analfabetas também estão sob a influência das estratégias da escrita em seu desempenho oral.
             A escrita passou a ter um “status” bastante singular no contexto das atividades cognitivas em geral. Deve-se distinguir, então:

·LETRAMENTO: processo de aprendizagem sócio-histórica da leitura e da escrita em contextos informais e para usos utilitários.

·ALFABETIZAÇÃO: domínio ativo e sistemático das habilidades de ler e escrever.

·ESCOLARIZAÇÃO: prática formal e institucional de ensino que visa a uma formação do indivíduo, sendo que a alfabetização é apenas uma das atribuições/atividades. (cf MARCUSCHI, 2007a).

           Muitos são os usos de oralidade e escrita em nossa sociedade os diferentes usos possibilitados através de diferentes mídias e tecnologias, além da própria voz e do código escrito, põem em contato / interação / dialogismo diferentes subjetividades, em diferentes espaços sociais:

·homem/mulher                                      ·patrão/empregado
·pai/filho                                                  ·professor/aluno
·padre/fiel ( entre outros)
                                                                                  
           A história do uso da escrita e da alfabetização ocidental é descontínua e contraditória. A alfabetização instituída dá-se de preferência sob o controle do estado, orientando-se por seus objetivos. Assim a aquisição da escrita é um fenômeno “ideológizavel”. A fala é contínua no dia-a-dia e a oralidade tem lugar em seus diferentes contextos e usos sociais.
  
V. Fala x escrita – perspectiva variacionista: tal visão trata do papel da escrita a partir dos processos educacionais e da variação na relação língua padrão e não-padrão em contextos de ensino formal. Modelos teóricos baseiam-se no “currículo bidialetal”. Não há dicotomias, verificam-se as regularidades e variações:

*Língua padrão 
 *Variedade não-padrão
*Língua culta 
 *Língua coloquial
*Norma padrão 
 *Norma não-padrão

          Para Marcuschi fala e escrita não são dialetos, mas “modalidades” de uso de língua. Nesse sentido o aluno se tornaria “bimodal”.

VI. Oralidade x escrita – a perspectiva interacional: esta perspectiva trata das relações entre fala e escrita, considerando o “continuum” textual. É a visão interacionista, cujos fundamentos baseiam-se em:

·Relação dialógica no uso                                           ·Estratégias de linguagem
·Funções interacionistas                                             ·Envolvimento e situacionalidade
·Formulaicidade

VII. Concepção e funcionamento da língua – consequente relação fala / escrita: 
          A língua (seja oral ou escrita) reflete a organização da sociedadeuma vez que se relaciona com as “representações e as formações sociais”. Entretanto, a fala e a escrita representam formas de organização da mente através das próprias representações mentais. 

          ***Atividade para demonstrar aos alunos na prática as diferenças entre a Linguagem Falada e Escrita.

1- O professor escolherá um um texto com relatos de um acontecimento do dia-a-dia. Como por exemplo a história de um dia ruim que alguém teve;
2- Serão escolhidos três alunos para essa demonstração;
3- A professora lê a história inteira para o aluno "A", enquanto os alunos "B" e "C" esperam do lado de fora;
4- Depois o aluno "A" sem ajuda do texto contará a história para o aluno "B", que depois fará o mesmo com o aluno "C".
5- Ao fim da atividade , com o aluno "C" recontando o que lhe foi passado , os outros alunos que acompanharam as três formas diferentes de contar a história verão as diferenças entre a língua falada e a escrita .


REFERÊNCIAS:

KOCH, I. V.  O Texto e a Construção dos Sentidos. São Paulo, Contexto, 1997, p.61-64. 
MARCUSCHI, L. A. Oralidade e Escrita. Recife/UFPE, Mimeografado,1995.
Da fala para a escrita: atividades de retextualização. 7ed. São Paulo: Cortez, 2007

(Letícia M. Goulart)

O nascimento de uma Linguística do Texto: da frase ao texto (Conteúdo 2)



A ciência da linguagem (Linguística Estrutural) teve início no final do século XIX, com base nas ideias de Ferdinand Saussire. A partir da década de 60, surgem os novos campos teóricos da linguagem:
  • A sociolinguística;
  • A neurolinguística;
  • A pragmática;
  • A análise do discurso;
  • A etnolinguística;
  • A psicolinguística;
  • A análise da conversação;
  • A semântica;
  • A gramática gerativo-transformacional;
  • A Linguística textual, entre outros.


A Linguística Textual, da qual vamos tratar nessa postagem, foi motivada a tentar resolver as lacunas deixadas pela Linguística Estrutural, que acabou chamando a atenção de outros olhares teóricos também relacionados à linguagem para além do formalismo estruturalista (história, antropologia, sociologia, etnometodologia, psicologia etc) e cresceu ainda mais a necessidade de ampliar seus domínios, bem como o interesse em sanar possíveis lacunas e insuficiências dessa ciência piloto, afinal uma ciência nunca está fechada, pronta e acabada!
Algumas dessas lacunas que foram deixadas e a LT tentou solucionar foram:
  • A dicotomia Língua x Fala (e desconsideração da Fala);
  • A desconsideração dos aspectos Extralinguísticos;
  • A autonomia do objeto de estudo (Língua);
  • A desconsideração do Sujeito (desconsideração da Fala, portanto, do Falante);
  • A unidade de análise centralizada na Frase;
  • A separação do Enunciado de sua Enunciação;
  • A desconsideração quanto ao estudo da significação e do sentido.

A LT empenhou-se, principalmente em:
  • Ir além dos limites da frase;
  • Reintegrar o sujeito e a situação sócio-comunicativa ao escopo de investigação teórica;
  • Desenvolver e ampliar o estudo do texto em suas modalidades oral e escrita, a partir de sua organização estrutural, processamento cognitivo e funcionamento sócio-interacional.


A Linguística Textual passou por três fases:

1ª fase – Transfrástica

Nessa primeira fase, o texto é concebido como:
  • Sequência pronominal ininterrupta – ênfase no fenômeno de correferenciação;
  • Sequência coerente de enunciados – encadeamento lógico, através da conectividade;
  • Forma de organização do material linguístico – sequenciamento lógico com início, meio e fim;
  • Unidade linguística superior à frase – unidade de análise mais complexa e completa.


2ª fase – Gramáticas Textuais

Essa fase considera a separação entre Texto x Não-Texto, onde o texto se encontra em oposição ao discurso e é influenciada pela Gramática Gerativa Transformacional (por Chomsky), e segundo essa gramática, todo falante tem três capacidades básicas com relação ao texto:
1ª formativa – compreender e produzir;
2ª transformativa – reformular, parafrasear e resumir;
3ª qualificativa – reconhecer e tipificar: narração, descrição, dissertação.

Para ser considerado texto, precisa ser concebido como:
  • Complexo de preposições sintático-semânticas – apresenta um conjunto de conteúdos que se organizam na superfície textual em função da coerência e da coesão;
  • Estrutura pronta e acabada – equivalente a um modelo formal e ideal definido à priori;
  • Produto de uma competência linguística idealizada do ponto de vista de um falante ideal e de um modelo de texto ideal – ênfase no aspecto formal do texto em sua extensão e seus constituintes;
  • Maior unidade linguística com sequenciamento de signos linguísticos coeso (microestrutura), coerente (macroestrutura) e consistente.


3ª fase – Teoria do Texto

Já a última fase da Linguística Textual, desconsidera a separação Texto x Não-Texto. O texto não pode ser entendido como um produto, uma estrutura pronta e acabada e passa a ser concebido como:
  • Uma atividade verbal, consciente e interacional entre falante/ouvinte – leitor/leitor;
  • Conjunto de operações linguísticas e cognitivas reguladoras e controladoras da produção, construção, funcionamento e recepção, seja de natureza escrita ou oral;
  • Um processo com atividades lobais de comunicação – planejamento, verbalização e construção. Sua organização envolve a coesão ao nível semântico e cognitivo e o sistema de pressuposições e implicações ao nível pragmático da produção, no plano das ações e intenções dos falantes;
  • Enfim, um ato de comunicação unificado num complexo universo de ações humanas, preservando a organização reticulada ou tentacular, não linear (coerência-sentidos e intenções), no aspecto semântico e nas funções pragmáticas.



Assim, a Linguística Textual torna-se uma disciplina de caráter interdisciplinar, relacionando seus interesses com os de outras áreas.

Abaixo, segue um vídeo explicando um pouco mais a fundo, feito pelo professor Franklin Oliveira:


Construindo sentidos no texto: organização estrutural e processamento textual (Conteúdo 3)

Semântica é o estudo do significado. Incide sobre a relação entre significantes, tais como palavras, frases, sinais e símbolos, e o que eles representam, a sua denotação.
A semântica linguística estuda o significado usado por seres humanos para se expressar através da linguagem.
A semântica contrapõe-se com frequência à sintaxe, caso em que a primeira se ocupa do que algo significa, enquanto a segunda se debruça sobre as estruturas ou padrões formais do modo como esse algo é expresso(por exemplo, as relações entre predicados e seus argumentos). Dependendo da concepção de significado que se tenha, têm-se diferentes semânticas. A semântica formal, a semântica da enunciação ou argumentativa e a semântica cognitiva, descrevem o mesmo fenômeno, mas com conceitos e enfoques diferentes.
Na língua portuguesa, o significado das palavras leva em consideração:

Sinonímia: É a relação que se estabelece entre duas palavras ou mais que apresentam significados iguais ou semelhantes, ou seja, os sinônimos: Exemplos: Cômico - engraçado / Débil - fraco, frágil / Distante - afastado, remoto.
Antonímia: É a relação que se estabelece entre duas palavras ou mais que apresentam significados diferentes, contrários, isto é, os antônimos: Exemplos: Economizar - gastar / Bem - mal / Bom - ruim.
Homonímia: É a relação entre duas ou mais palavras que, apesar de possuírem significados diferentes, possuem a mesma estrutura fonológica, ou seja, os homônimos:
As homônimas podem ser:
Homógrafas: palavras iguais na escrita e diferentes na pronúncia. Exemplos: gosto (substantivo) - gosto / (1ª pessoa singular presente indicativo do verbo gostar) / conserto (substantivo) - conserto (1ª pessoa singular presente indicativo do verbo consertar);

Homófonas: palavras iguais na pronúncia e diferentes na escrita. Exemplos: cela (substantivo) - sela (verbo) / cessão (substantivo) - sessão (substantivo) / cerrar (verbo) - serrar ( verbo);

Perfeitas: palavras iguais na pronúncia e na escrita. Exemplos: cura (verbo) - cura (substantivo) / verão (verbo) - verão (substantivo) / cedo (verbo) - cedo (advérbio);

Paronímia: É a relação que se estabelece entre duas ou mais palavras que possuem significados diferentes, mas são muito parecidas na pronúncia e na escrita, isto é, os parônimos: Exemplos: cavaleiro - cavalheiro / absolver - absorver / comprimento - cumprimento/ aura (atmosfera) - áurea (dourada)/ conjectura (suposição) - conjuntura (situação decorrente dos acontecimentos)/ descriminar (desculpabilizar) - discriminar (diferenciar)

Polissemia: É a propriedade que uma mesma palavra tem de apresentar vários significados. Exemplos: Ele ocupa um alto posto na empresa. / Abasteci meu carro no posto da esquina. / Os convites eram de graça. / Os fiéis agradecem a graça recebida.

Homonímia: Identidade fonética entre formas de significados e origem completamente distintos. Exemplos: São(Presente do verbo ser) - São (santo)

Hiperônimo: é uma palavra que pertence ao mesmo campo semântico de outra mas com o sentido mais abrangente, podendo ter várias possibilidades para um único hipônimo.
Por exemplo, a palavra flor está associada a todos os tipos de flores: rosa, dália, violeta, etc.
Hipônimo: têm sentido mais restrito que os hiperônimos, ou seja, hipônimo é um vocábulo mais específico. Por exemplo: Observar, examinar, olhar, enxergar são hipônimos de ver.
Hiperônimo e hipônimo são dois termos usados pela semântica moderna. São elementos importantes na coesão do texto evitando repetições através da retomada de ideias anteriores.
Conotação e Denotação:

Conotação: é o uso da palavra com um significado diferente do original, criado pelo contexto. Exemplos: Você tem um coração de pedra. Denotação: é o uso da palavra com o seu sentido original. Exemplos: Pedra é um corpo duro e sólido, da natureza das rochas. A construção de um muro de pedras.

Outras teorias cujo objeto de estudo é o texto (Conteúdo 4)



Segue vídeo explicativo a respeito do assunto abordado:


 

Diferenças e Características da Fala e da Escrita (Conteúdo 5)


Para representar este conteúdo, selecionamos um vídeo:




Análise da Conversação (Conteúdo 6)



 
      

MARCUSCHI, Luiz Antônio. Análise da conversação. 5. ed. São Paulo: Ática, 2000.




Apresentação   

   A introdução do Livro de Marcuschi traz uma informação importante do autor, que é o fato de sabermos pouco sobre a língua portuguesa falada no Brasil; seu real funcionamento e menos ainda, como afirma o autor sobre os processos conversacionais. Ele diz oferecer então por meio desse livro alguns elementos e espera que sirva de incentivo aos leitores para futuras investigações. O autor coloca que há boas razões para o estudo da conversação por ser a prática social mais comum no dia-a-dia do ser humano e desenvolve o espaço privilegiado para a construção de identidades sociais no contexto real. 

   Marcuschi afirma que a conversação exige uma enorme coordenação de ações que exorbitam em muito a simples habilidade linguística dos falantes. Ele contextualiza o que é Análise da conversação que chama de AC. Mostra como se iniciou na década de 6 na linha da etnometodologia e da antropologia cognitiva e preocupou-se até meados dos anos 70 sobretudo com a descrição das estruturas da conversação e seus mecanismos organizadores. Hoje pontua o autor que outros aspectos envolvidos na atividade conversacional devem ser observados.

   A Análise da Conversação deve preocupar-se, sobretudo com a especificação dos conhecimentos linguísticos, para-linguísticos e socioculturais partilhados para que a interação seja bem sucedida. Segundo o autor o problema passa da organização para a interpretação. No livro o autor diz tentar explicar resultados dessas duas perspectivas. Por um lado oferece-se uma noção do tipo de atividade representada pela conversação e suas arquitetura geral, evidenciando que ela não é um fenômeno anárquico e aleatório, mas altamente organizado e por isso mesmo possível de ser estudado com rigor científico. Por outro mostra como essa organização também é reflexo de um processo subjacente, desenvolvido, percebido e utilizado pelos participantes da atividade comunicativa. As decisões interpretativas dos interlocutores  decorrem de informações contextuais e semânticas mutuamente construídas ou inferidas de pressupostos cognitivos, étnicos e culturais, entre outros. A Análise da Conversação tem vocação empirista e tenta responder questões como: Como é que as pessoas se entendem ao conversar? Como sabem que estão se entendendo? Como usam seus conhecimentos linguísticos e outros para criar condições adequadas à compreensão mútua? Esses aspectos são tratados no livro.

   Segunda parte do Livro intitulado: A transcrição de conversações

   Nessa parte o autor começa dizendo que já que a AC procede com base em um material empírico reproduzindo conversações reais e considera detalhes não apenas verbais, mas entonacionais, paralinguísticos e outros. O autor então diz que algumas informações adicionais, quando houver devem aparecer na transcrição, uma vez constatadas sua relevância. O autor pontua que se trata de uma questão complexa definir com clareza o que e quanto assinalar na superfície de uma conversação. Segundo ele não existe a melhor transcrição. Todas são mais ou menos boas. O essencial é que o analista saiba quais seus objetivos e não deixe de assinalar o que lhe convém. Marcuschi trabalha então com alguns exemplos de transcrição e explica problemas que podem ocorrer como: Falas simultâneas, sobreposição de vozes, sobreposições localizadas, pausas, dúvidas e suposições, truncamentos bruscos, ênfase ou acento forte, alongamento vocal, comentários do analista, silabação, sinais de entonação, pausa preenchida, hesitação ou sinais de atenção, indicação de transcrição parcial ou de eliminação.


 Terceira parte do livro: Características organizacionais da Conversação

  O autor nessa parte do livro propõe uma análise da organização elementar da conversação, onde coloca cinco características básicas constitutivas: interação entre pelo menos dois falantes, ocorrência de pelo menos uma troca de falantes, presença de uma sequência de ações coordenadas, execução numa identidade temporal, envolvimento numa “interação centrada”. Ele discute essas características e esclarece o leitor dessa organização elementar da conversação.



   Quarta parte do livro: Organização de turno a turno

   Marcuschi aponta que uma vez definida as características da conversação, pode-se partir para o sistema básico de sua operação e diz que um dado é certo: toda a conversação é sempre situada em alguma circunstância ou contexto em que os participantes estão engajados. O autor diz que a tomada de turno é uma operação básica da conversação, onde o turno passa a ser um dos componentes centrais do modelo. Com isso, o turno pode ser tido como aquilo que um falante faz ou diz enquanto tem a palavra, incluindo aí a possibilidade do silêncio. Difícil, contudo aponta o autor é definir com precisão quando se constitui ou não um turno.  Mais difícil segundo Marcuschi não é definir quando há uma mudança de turno e sim saber o que determina essa mudança e qual é o momento propício para ela ocorrer. Ele aponta então algumas questões para tentar explicar o assunto e as discute no livro, tais como: fala um por vez é a regra geral básica da conversação, quem tem a palavra e quando, falas simultâneas e sobreposições, pausas, silêncios e hesitações, reparações e correções. O autor explica cada um desses pontos importantes com exemplos e esclarece a organização de turnos de modo que o leitor possa compreender esse processo.



   Quinta parte do livro: Organização de sequências

   Marcuschi irá abordar a organização que exorbitam o âmbito do turno e se estendem ao nível da sequência. Há um foco nesse capítulo apenas nas sequências mínimas que se dão segundo o autor na extensão de dois ou três turnos e podem aparecer em qualquer lugar da conversação. Ele divide  capítulo em tópicos importantes como:

   Pares conversacionais: características e organização. O autor diz que a conversação consiste normalmente numa série de turnos alternados, que compõe seqüências em movimentos coordenados e cooperativos. Entre essas sequências existem algumas altamente padronizadas quanto a sua estruturação.

  Pergunta resposta: Uma das sequências conversacionais mais comuns é a representada pelo par pergunta-resposta. Ele exibe várias formas de realização e exemplifica.

 Pré-sequências: são unidades, cuja, motivação é estabelecer coesão discursiva ou preparar o terreno para outra sequência, ou unidades que contém uma asserção, como no caso de uma informação. O autor traz exemplos disso no livro e fala sobre outras formas de organização de seqüências.



  Sexta parte do livro: Organizadores globais: o caso da conversação telefônica

  Ao lado dos organizadores conversacionais que operam localmente como a tomada de turno, os pares adjacentes e outros, existem alguns recursos que organizam a conversação em termos globais, tais como as aberturas e os fechamentos. Segundo Marcuschi o mais normal numa conversação é que ela tenha pelo menos três seções distintas estruturalmente, ou seja, uma abertura, um desenvolvimento e um fechamento.o autor fala sobre as muitas maneiras de iniciar uma conversação dependendo da situação, das circunstâncias e dos meios utilizados. Na análise presente nessa sexta parte do livro o autor vai se ater apenas a caso dos telefonemas. Isso ele explica pelo fato de no telefonema  canal de contato ser puramente linguístico, e todos os problemas terem de ser resolvidos verbal e explicitamente, é uma das poucas conversações das quais se pode obter o início, o desenvolvimento e a conclusão integralmente. O autor então analisa uma conversa no telefone em todos esses aspectos citados.



  Sétima parte do livro: Marcadores conversacionais

 Pelos capítulos já vistos Marcuschi mostra que os marcadores do texto conversacional são específicos e com funções tanto conversacionais como sintáticos. Aponta classes de marcadores, tipos, funções e posições. O autor explica cada um desses pontos trazendo análises juntamente com exemplos e ao final do capítulo mostra que a abordagem não é completa e talvez sequer seja representativa. Serve de indicação para estudos futuros uma vez que os elementos são cruciais para se ter uma visão melhor do que é específico da fala e dão medida de naturalidade.



  Oitava parte do livro: Coerência conversacional e organização do tópico

  O autor abre essa parte do livro mostrando que uma conversação não é um enfileiramento aleatório e sucessivo de turnos. Ela é organizada por estratégias de formação e coordenação. O problema segundo o autor é a natureza do funcionamento desta coordenação, que se dá cooperativamente e não por decisão unilateral. Como a conversação se dá em turnos alternados e com vários falantes, é impossível fazer a coerência recair nas produções individuais. Assim a coerência conversacional ao é simplesmente uma relação simétrica entre turnos consecutivos. Na conversação, ao contrário do que se dá no texto escrito, a coerência é um processo que ocorre na orientação temporal em que reversibilidade não se verifica. Daí a dificuldade segundo o autor que um falante tem de assegurar o tópico, uma vez que não pode programar o seguimento completo. Marcuschi fala sobre a organização do tópico e diz que no geral as conversações iniciam-se com o tópico que motivou o encontro. Uma conversação fluente é aquela em que a passagem de um tópico a outro se dá com naturalidade, mas é muito comum que a passagem de um tópico a outro seja marcada. Os marcadores de introdução de tópico não funcionam apenas para indicar que se está passando para algo novo, mas que esta passagem tem alguma razão de ser e deve ser notada, contudo é comum ocorrerem mudanças de tópico sem nenhum aviso. Neste caso é provável que concorram marcadores de outra natureza. A partir de então o autor traz exemplos sobre essa discussão e os explica.



  Nona parte do livro: Observações finais

  O autor traz nessa parte o que pretendeu discutir no livro e pontua que em cada momento surgem contra-exemplos, e nem tudo é como a teoria gostaria que fosse. Mais do que tudo, o que se deve perceber segundo Marcuschi é que os sistemas organizacionais não foram propostos como normas para padrões de funcionamento e sim como procedimentos analíticos.



  Décima parte: Vocabulário Crítico.

  O autor traz os conceitos usados no livro e seus significados.



  Décima primeira parte: Bibliografia comentada. O autor traz autores utilizados no livro como referenciais teóricos e suas bibliografias de forma comentada e pesquisas que cada um realiza em sua área e pequenas sínteses dos trabalhos dos colegas.